O exame que pode salvar sua vida: entenda o DNA-HPV e a revolução no rastreamento do câncer do colo do útero
Todo ano, cerca de 17 mil mulheres recebem o diagnóstico mais temido — e muitas delas poderiam ter evitado isso com um único exame.
O câncer do colo do útero é o terceiro tipo de câncer mais comum entre as mulheres no Brasil. Apesar de ser prevenível e tratável quando detectado cedo, ele ainda mata mais de 7 mil brasileiras por ano. Isso não é inevitável. É evitável.
Em agosto de 2025, o Ministério da Saúde publicou uma das mudanças mais importantes da saúde feminina das últimas décadas: a adoção oficial do teste de DNA-HPV oncogênico como método primário de rastreamento — substituindo gradualmente o tradicional Papanicolau.
Se você é mulher, ou cuida de uma, continue lendo. Essa informação pode literalmente salvar uma vida.
O que é o câncer do colo do útero e por que ele ainda preocupa?
O colo do útero é a parte inferior do útero que se conecta à vagina. O câncer que se desenvolve nessa região é, na quase totalidade dos casos, causado por uma infecção persistente pelo HPV (Papilomavírus Humano).
O HPV é responsável por praticamente 100% dos casos de câncer do colo do útero. Mas nem toda infecção por HPV vira câncer — o problema surge quando certos tipos do vírus (chamados de oncogênicos) ficam no organismo por anos sem serem identificados e tratados.
Os números que você precisa conhecer
| Indicador | Dado |
|---|---|
| Novos casos por ano no Brasil (2023–2025) | ~]17.010 |
| Mortes por câncer do colo do útero em 2023 | 7.209 |
| Posição entre cânceres femininos no Brasil | 3º mais incidente |
| Posição nas regiões Norte e Nordeste | 2º mais incidente |
| Percentual de casos causados pelo HPV | ~100% |
As regiões Norte e Nordeste concentram as maiores taxas de incidência e mortalidade — um reflexo direto da desigualdade no acesso à saúde preventiva no país.
Papanicolau vs. DNA-HPV: qual é a diferença?
Durante décadas, o exame de Papanicolau (também chamado de "preventivo" ou "colpocitologia") foi o único método disponível para rastrear alterações no colo do útero. Ele analisa células coletadas do colo uterino e busca sinais de lesão.
Agora, com a nova diretriz brasileira (Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 13, de 29 de julho de 2025), o teste de DNA-HPV oncogênico passa a ser o método primário de rastreamento no SUS.
O que muda na prática?
| Critério | Papanicolau | Teste DNA-HPV |
|---|---|---|
| O que detecta | Células alteradas | Material genético do vírus HPV |
| Frequência recomendada | A cada 3 anos | A cada 5 anos |
| Momento da detecção | Lesão já formada | Infecção antes da lesão |
| Sensibilidade | Moderada | Alta |
| Papel nas novas diretrizes | Secundário (exame reflexo) | Primário |
O DNA-HPV detecta o vírus antes de qualquer célula virar uma lesão. Isso significa que o rastreamento passa a ser preditivo, e não apenas reativo.
💡 Em resumo: o Papanicolau mostra o que já aconteceu. O DNA-HPV avisa o que pode acontecer.
Como funciona o teste de DNA-HPV?
A coleta é semelhante à do Papanicolau: feita no consultório, com espéculo, por um profissional de saúde. O material recolhido do colo do útero é enviado para laboratório, onde se analisa se há presença de DNA do HPV oncogênico.
O fluxo do novo rastreamento
- Coleta — material é coletado no colo do útero
- Análise molecular — laboratório detecta presença do HPV oncogênico
- Resultado negativo → próximo exame em 5 anos
- Resultado positivo → exame de citologia reflexa (Papanicolau)
- Citologia alterada → encaminhamento para colposcopia
- Colposcopia → confirmação diagnóstica e conduta terapêutica
A colposcopia se mantém como exame confirmatório. O Papanicolau passa a ter papel complementar — aplicado como segundo passo apenas quando o DNA-HPV der positivo.
Quem deve fazer o rastreamento?
As novas diretrizes ampliam a visão de quem precisa ser rastreado. Não se trata apenas de mulheres cisgênero.
Quem está incluído no rastreamento:
- ✅ Mulheres cisgênero
- ✅ Homens transgênero (nascidos com sistema reprodutivo feminino)
- ✅ Indivíduos não binários e de gênero fluido (com colo do útero)
- ✅ Pessoas intersexuais com sistema reprodutivo feminino
Faixa etária recomendada:
As diretrizes atuais indicam rastreamento para pessoas com colo do útero na faixa de 25 a 64 anos. Abaixo dos 25, o risco de infecção transitória é alto e o rastreamento pode gerar mais danos do que benefícios. Acima dos 64, pessoas com histórico de exames normais anteriores podem ser dispensadas — mas sempre com orientação médica.
⚠️ Atenção: As recomendações não se aplicam a casos sintomáticos (sangramentos, dor pélvica, corrimento anormal persistente). Nesses casos, busque atendimento médico imediatamente — não espere pelo rastreamento periódico.
🙋 FAQ — Perguntas frequentes sobre o rastreamento do câncer do colo do útero
1. O DNA-HPV substitui completamente o Papanicolau?
Não de imediato. O Papanicolau continua sendo usado como exame reflexo — ou seja, é solicitado quando o DNA-HPV dá positivo, para verificar se já há lesões celulares. A transição é gradual e organizada pelo SUS.
2. O teste de DNA-HPV está disponível gratuitamente no SUS?
Sim. Com a publicação da Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 13, os gestores do SUS foram orientados a estruturar a rede assistencial para oferecer o novo exame. A implementação é progressiva e pode variar por município.
3. Tenho HPV. Isso significa que vou ter câncer?
Não necessariamente. A maioria das infecções por HPV é eliminada espontaneamente pelo próprio sistema imunológico. O risco de câncer surge quando há infecção persistente por tipos oncogênicos (especialmente HPV 16 e 18). Por isso o rastreamento regular é tão importante.
4. A vacina contra HPV ainda é necessária se vou fazer o exame?
Sim, e muito. A vacina previne a infecção. O exame detecta se a infecção já ocorreu. São estratégias complementares. O SUS oferece vacinação contra HPV gratuitamente para meninas e meninos de 9 a 14 anos, e para grupos prioritários.
5. Posso fazer o exame durante a menstruação?
O ideal é evitar a coleta durante o fluxo menstrual. O melhor período é entre o 10º e o 20º dia do ciclo. Em caso de dúvida, consulte a unidade de saúde mais próxima.
O papel da vacinação: prevenção que começa antes do exame
O rastreamento detecta o problema cedo. A vacina impede que ele aconteça.
O SUS disponibiliza a vacina contra HPV desde 2014. A cobertura vacinal, porém, ainda está abaixo do recomendado pela Organização Mundial da Saúde. Isso significa que muitas pessoas entrarão na vida adulta sem proteção prévia — reforçando ainda mais a importância do rastreamento regular.
As duas estratégias juntas — vacinar e rastrear — formam o caminho mais eficaz para a eliminação do câncer do colo do útero como problema de saúde pública nas próximas décadas.
Desigualdade regional: por que o Norte e o Nordeste preocupam mais?
Nas regiões Norte e Nordeste, o câncer do colo do útero ocupa o segundo lugar entre os cânceres femininos — enquanto no Sudeste está em quinto. Essa diferença não é genética nem aleatória.
É consequência direta de:
- Menor acesso a unidades básicas de saúde
- Menor cobertura vacinal contra HPV
- Dificuldade de deslocamento para exames e colposcopia
- Rastreamento tardio ou inexistente
A nova diretriz busca organizar e padronizar o atendimento em todo o território nacional — mas a implementação depende do comprometimento dos gestores municipais e estaduais de saúde.
O que esperar do futuro?
A combinação de três pilares marca a esperança científica de que o câncer do colo do útero seja eliminado como problema de saúde pública:
💉 Vacinação universal contra HPV
🔬 Rastreamento organizado com DNA-HPV oncogênico
📋 Diretrizes clínicas padronizadas em todo o SUS
Essa visão não é utópica. A Organização Mundial da Saúde estabeleceu metas concretas para isso até 2030 — e o Brasil, com as novas diretrizes de 2025, deu um passo importante nessa direção.
✅ Checklist: o que você deve fazer agora
[ ] Verifique quando foi seu último exame preventivo
[ ] Pergunte na UBS mais próxima sobre o teste de DNA-HPV
[ ] Confirme se sua vacinação contra HPV está em dia
[ ] Compartilhe este artigo com mulheres que você conhece
[ ] Se tiver sintomas (sangramento, dor pélvica), não espere — busque atendimento
Informação é prevenção
O câncer do colo do útero é prevenível. Com um exame a cada cinco anos — e a vacina na adolescência — você reduz drasticamente o risco de um diagnóstico tardio.
A ciência avançou. As diretrizes mudaram. O SUS está se adaptando.
Mas a primeira atualização precisa acontecer com você: marque seu exame preventivo.
👉 Compartilhe este artigo com quem você ama. Informação que salva vidas merece ser espalhada.
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✍️ Autoria
Autor: Dr. Filipe Portilho Farmacêutico & Ph.D. pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Especialista em Radiofarmácia. Divulgador científico e fundador do Pulso Científico.
📚 Referências
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Ministério da Saúde do Brasil. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 13, de 29 de julho de 2025. Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer de Colo do Útero: Parte I – Rastreamento organizado utilizando testes moleculares para detecção de DNA-HPV Oncogênico. Disponível em: gov.br/saude
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Instituto Nacional de Câncer (INCA/MS). Estimativa 2023: Incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA, 2022. Disponível em: inca.gov.br
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Instituto Nacional de Câncer (INCA/MS). Aprovadas Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer de Colo do Útero. Agosto de 2025. Disponível em: gov.br/inca
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Conselho Federal de Enfermagem (COFEN). Ministério da Saúde publica novas diretrizes para rastreamento do câncer do colo do útero. Agosto de 2025. Disponível em: cofen.gov.br
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Organização Mundial da Saúde (OMS/WHO). Global strategy to accelerate the elimination of cervical cancer as a public health problem. Geneva: WHO, 2020. Disponível em: who.int
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FEBRASGO – Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero. Disponível em: febrasgo.org.br
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World Health Organization (WHO). Human papillomavirus (HPV) and cervical cancer. Fact Sheet. Disponível em: who.int/news-room